18.3.09

Prefácio do Livro Encarna

uma poética da resistência -

márcio-andré

Não pretendo deter-me aqui na inegável qualidade da poesia deste livro – ela fala melhor por si mesma. Também não me interessa descrever o poeta Berimba, cara responsa daqueles que você simpatiza ainda na primeira rodada de chopp, uma vez que qualquer biografismo fajuto nada tenha a melhorar ou piorar o trabalho do autor. O que gostaria de debater com o tão logo leitor é o caminho escolhido entre o poeta e sua poesia, que enfim resultou neste livro que ambos (leitor e prefaciador) temos, neste exato instante, nas mãos.

Se pudéssemos seccionar e isolar as atuais vertentes, tendências e direcionamentos da literatura ou da arte de um modo geral, chegaríamos a apenas duas atitudes diante dela: aquela (grande maioria) que enxerga no ofício da escrita uma possibilidade de expressão ou afirmação dos valores de quem escreve, deixando entrever aí uma ferramenta ideológica e de consolidação institucional, e aquela onde a escrita é já a própria condição fundamental da vida, de tal forma que o escritor não a concebe possível fora de sua dimensão. Talvez seja apenas uma questão de vetor, uma vez que no primeiro caso, escreve-se para consolidar-se escritor, e no segundo, a condição de escritor surge da necessidade e ato de escrever. Entretanto, é justamente na direção – isto é, aonde levam – que os caminhos se qualificam e o artista se define quanto ao seu papel social e ético. Está em jogo se a obra de arte será sujeita ao indivíduo ou se é o indivíduo que se conformará em corresponder aos apelos da própria arte.

Esta segunda postura, cujo caminho é certamente mais estreito e penoso, é aquela assumida por Berimba de Jesus – não porque tenha chegado até aqui se equilibrando no fio da navalha, conhecendo a realidade comum à maioria dos brasileiros, porém acessível a poucos poetas, mas porque remando contra todas as determinações e potências imperiosas dos condicionamentos sociais, ele não deixou de trilhar o caminho da poesia – mais, não deixou de esmerar-se em torná-lo cada vez mais o seu próprio caminho. Neste sentido, é verdadeiramente difícil distanciar o poeta Berimba de sua poesia, ainda que não devamos jamais confundir a obra com o autor, caso contrário, correríamos o risco de cair na primeira postura citada acima. O que, de fato, se confunde aqui com a poesia não é Berimba, mas as conseqüências da escolha que, em algum instante obscuro de sua vida, determinou que seu corpo e devoção não fossem consagrados a nenhum outro deus que não a escrita.

Berimba, o autor, participa de uma forte vertente contracorrente da poesia paulistana: os Maloqueiristas, que produzem livretos de forma independente e os vendem nas ruas. Assumidamente “marginais”, o grupo busca a “redenção” ao fazer valer e destacar a periferia no ambiente mainstream de Sampa. E eis que a poesia de Berimba deseja igualmente ser resistência à ética estabelecida da retificação urbana, em prol de uma po-ética sub-urbana, contra os pequenos simulacros, contra as formalizações, contra os que se julgam detentores da arte e da cidade só porque detêm o poder formal das instituições – e entre estes está aquela grande massa atuante na primeira qualidade de artistas descrita acima. Mas, ainda que "militante”, a poesia de Berimba não faz isso de forma ingênua ou assumidamente confrontadora. Não, pelo contrário. Encarna inicia seu primeiro poema da seguinte maneira:

vou mergulhar o corpo
em todos os meios

Neste verso, Berimba – não o poeta, mas o personagem escolhido pelo próprio poema para, a partir das experienciações daquele que o escreve, instaurar o estado poético – revela-se sábio. A palavra meio possibilita aí uma dupla leitura. Por um lado manifesta o desejo de transitar em todos os ambientes, por outro, a recusa em aderir a eles – isso porque estar no meio é estar fora das extremidades – sugerindo um observador que não toma partido. Não se trata de uma isenção temendo o comprometimento, mas do afastamento necessário àqueles que sobreviveram a infernos piores e agora gozam de certa sagacidade. São nesses meios que ele pretende mergulhar seu corpo. Paradoxo conflituoso, onde por um lado há o desejo de não estar de fora e por outro o desdém, é, entretanto, uma postura sábia, pois irônica, que, sem julgamentos, mas pleno de crítica, compreende e ri da pequeneza daqueles que acreditam em tais meios. E é preciso ser duro para tornar-se inteiro.

Este primeiro verso mostra a que veio o livro e vai guiá-lo até o fim. Um mergulho no entre, social e ontológico, quase por desencanto – desconcerto quinhentista do mundo a ser combatido em plena Paulista com seus moinhos maquinais. É nesta dinâmica a um só tempo monástica e marginal que Berimba constrói seu caminho:

enquanto o poema ser
minha plataforma única
estarei só
palavras e vida

Onde “estarei”, ambivalentemente, permite ser lido como estância provisória do “ser” anteriormente utilizado de forma atípica. Ou seja: “serei (enquanto o poema for minha plataforma permanente) só palavras e vida”. O fato de “estar só” é também autêntico, uma vez que basta o poema para mantê-lo firme. Tal firmeza se consolida no indiscernimento entre palavras e vida, à espera do que, em determinado poema, é chamado de “vida maior”:

com a sensação
de estar confinado
como quem espera
uma vida maior,
te vejo cada vez mais longe,
assim, apaixonado.

Ainda que este poema se refira ao distanciamento de alguém, essa “vida maior” não é uma questão pessoal meramente. O verso sonha com um mundo menos mesquinho, menos cretino, menos hipócrita. Essa “vida maior” seria simplesmente uma vida fora dos ditames da sociedade moderna, esta do consumo indiscriminado e da instrumentalização do indivíduo e da escrita, assumida com tanta propriedade pelos protagonistas dos meios onde pretende mergulhar e sair incólume. Portanto, a “vida maior” evoca aí o desejo de libertação através da própria poesia. É somente assim que o livro anseia

pelo tombamento
das flores de aço


E este não pode ser alcançado sem uma profunda transmutação da realidade, onde ela seja inteira, um completo indiscernimento entre poesia e vida, de sorte que retorne ao seu estado poético primordial, através de uma obra que se faça vida a cada instante:

sonho viver
uma obra aberta
espontâneo
a cada quilometro


Fica, para quem lê o livro, o sentido da busca por uma vida inteira, maior, na e pela escrita. Busca que, por vezes, revela uma história que só não é trágica pela certeza de que o personagem Berimba vence sempre. Ressoa, entretanto, nas confissões:

confesso,
entre piadas
um achar difícil.


Encarna é, portanto, um livro de encarnação – isto é, um livro que possibilita o fazer-se carne, fazer-se humano – ser humano, por sua vez, é ser inteiro em sua humanidade, correspondendo à “vida maior”. E faz isso através do escárnio dos protagonistas da farsa. Pois encarnar refere-se tanto a “corporificar”, quanto a “perseguir” ou “zombar de”. E de quem ou em quem o livro encarna? Se não fosse livro, seria brincadeira de malhação do judas, que encarna o “inimigo” em boneco de espuma para este ser encarnado pelos brincantes, em ritual onde se encarna um épico cristão de expurgação das injustiças. Mas sendo livro, encarna o sábio personagem Berimba para debochar do ridículo do mundo – desdenhando até mesmo de quem o lê, ao fazer o leitor encarnar em si mesmo o ridículo da sociedade.

Então, se há neste livro um mérito – e há muitos –, certamente está na busca por um caminho onde vida e poesia sejam o mesmo – “vida maior” –, de tal forma que já não seria um autor a escrever o poema, mas o poema a escrevê-lo. A busca por essa correspondência fez Berimba – neste caso, o poeta – concretizar, através do auto-aperfeiçoamento e autocrítica, um terceiro livro maduro, a um só tempo cru e sensível, verdadeiro, direto e sem firulas, como deve ser o olho e a boca daquele que tem a poesia na veia e diariamente mata um leão com as mãos. Num mundo e numa cidade onde a poesia pegou sólidos vícios de mão única, consolidando técnicas paradigmáticas de polarização e autocanonização, a mensagem subliminar ecoando ao fim deste livro talvez seja: vocês terão que engolir a minha poesia, esta que encarna em e de todas as coisas. É um livro onde vida é risco, onde poesia é risco. Uma poesia viva e da vida e fala por si e só.

3 comments:

Alan said...

Berimba!

Li uns livros seus, e agora virei jornalista e queria marcar uma entrevista (por e-mail, que seja)! Dá pé?

Meu e-mail: freaknm@gmail.com
Obrigado!!

Wladimir Cazé said...

Legal, cara! Parabéns! O livro sai quando? Por qual editora? Já tem a capa?

Marina said...

Lindo seu livro!
Delicado, profundo, romântico, contestador...
Obrigada por fazer bater meu coração!

Visite meu singelo espaço: serenissima-marina.blogspot.com

EX-PRESSÃO É PRÓ-CURA!!!!!!!